32º Domingo do Tempo Comum

10/11/2018
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Uma fé de aparências – Mc 12,38-44 – Estamos no 32º Domingo do Tempo Comum. O fim do ano Litúrgico já se aproxima e neste domingo temos uma narrativa evangélica muito conhecida, porém nem sempre bem contextualizada.  O texto inicia com crítica muito dura aos escribas. Eles visam apenas atrair a atenção das pessoas para si, buscando sua própria honra. Gostam de “andar com roupas compridas”, em vista de  uma ostentação no vestir, querem reconhecimento e saudação nas praças,  o primeiro lugar nas sinagogas e buscam reconhecimento público.  A Lei, (Torá), trazia prescrições de defesa do órfão, da “viúva” e do estrangeiro entre o “povo eleito”. Aqui vemos os escribas ou doutores, os defensores e intérpretes da Lei, ostentando dignidade e  autoridade. São “devoradores das casas das viúvas”, usando a aparência de piedade, com suas longas orações, só de aparência. Líderes religiosos marcados pela corrupção. Um traço da cultura da época é que a viúva, sem filho homem, era considerada incapaz de tratar dos negócios e propriedades do seu falecido marido. Então tinha que pedir ajuda aos escribas, as maiores autoridades, para administrar seus bens e estes tiravam proveito desta situação para se enriquecerem. Além desta exploração dos escribas na administração dos bens, o sistema do templo também explorava as viúvas, pois eram consideradas impuras e deviam fazer oferendas para serem purificadas. Jesus senta-se em lugar de destaque no Templo: em frente a um dos cofres, o tesouro do templo. Observa que os ricos depositam muito e o fazem de maneira ostensiva. Uma pobre viúva chega e coloca duas moedinhas. Marcos até explica o valor destas moedas. Jesus chama então os discípulos para mais um ensinamento. A viúva colocou mais do que todos, pois ela deu tudo o que tinha para viver. Podemos interpretar este gesto da viúva de duas maneiras: a) Uma primeira leitura, a mais comum, afirma que a mulher deu do seu necessário para viver e o deu inteiramente. Exalta-se a generosidade da viúva, sua absoluta confiança em Deus. (Muitas vezes, nas nossas igrejas, o texto serve para inspirar a pastoral do dízimo). b) Há uma segunda leitura que se poderia fazer deste gesto da mulher. Estudiosos observam que o texto inicia com dura critica às lideranças religiosas. Na parábola ou ação concreta da viúva,  Jesus estaria fazendo uma forte crítica ao sistema do templo, que explora os pobres e as viúvas. O tesouro era o lugar onde, tradicionalmente, se acumulava a riqueza, e a mulher viúva deposita nele tudo o que tinha para viver. Jesus, que veio para que todos tenham vida e a tenham em abundância, estaria denunciando a exploração da mulher viúva, alertando que sua vida estava sendo roubada pelo sistema iníquo do templo, fazendo-a dar o que lhe “era necessário para viver”. Esta outra forma de pensar dificilmente se faz presente em nossas Igrejas. A interpretação mais comum é a que apresenta a viúva como modelo de piedade, fé e sacrifício agradável a Deus. Esta interpretação confirma a maneira de pensar dos escribas no tempo de Jesus. Dar tudo para Deus, por meio do templo, que nada mais era senão uma forma de ganhos ilícitos. Jesus está sempre em confronto direto com o modo de pensar dos escribas e doutores. Mostra sua indignação pela sua aparente piedade das lideranças, fazendo “longas orações” em público e aproveitam do seu prestígio religioso para explorar as viúvas e os pobres. Uma narrativa que, certamente, é denúncia e luz para nossos dias. Ir. Zenilda Luzia Petry – FSJ