Terceiro Domingo do TC – 27-01

24/01/2019
cifsj

“O Espírito do Senhor está sobre mim” – Lc 1,1-4; 4,14-21 – Terceiro Domingo do TC, ano dedicado ao Evangelho de Lucas. A narrativa de hoje é constituído por dois textos diferentes. No primeiro (1,1-4), temos um prólogo literário, onde Lucas afirma que “quis escrever uma narração bem ordenada” para que Teófilo possa “verificar a solidez dos ensinamentos recebidos”. Lucas diz que pesquisou entre os que foram “desde o início, testemunhas oculares e ministros da Palavra”. Seu escrito é fruto da caminhada viva das comunidades. Não se trata de uma história ou doutrina, mas de uma “boa noticia” de Deus para sustentar a fé dos discípulos de ontem e de hoje. A obra é dirigida a Teófilo. Quem é Teófilo? Pode ser um nome simbólico, pois Teófilo (Teo + filo) significa “amigo de Deus”.  Seria assim uma obra dirigida a todos os amigos de Deus. Na segunda parte (4,14-21), apresenta-se o início da pregação de Jesus. Em Nazaré, o cenário de fundo é o do culto sinagogal, no sábado. O serviço litúrgico celebrado na sinagoga consistia em orações e leituras da Lei e dos Profetas, com o respectivo comentário. Os leitores eram membros instruídos da comunidade ou, como no caso de Jesus, visitantes conhecidos pelo seu saber na explicação da Palavra de Deus. O centro do relato está na proclamação de um texto de Isaías (cf. Is 61,1-2) que descreve como é que o Messias concretizará a sua missão. Duas informações perpassam o texto: veio anunciar uma “boa notícia” e “proclamar o ano da graça”.  Jesus não lê um texto “por acaso” da Escritura. Escolheu o texto para definir sua identidade e missão. “O Espírito do Senhor está sobre mim. Ele me ungiu”. Jesus declara-se ungido pelo Espirito de Deus, impregnado por sua força. Ele é o Messias, o “Cristo”, o “ungido”, o escolhido. “Enviou-me para dar a Boa Notícia aos pobres”. Deus se preocupa com os sofrimentos das pessoas. Esta é a grande tarefa de Jesus: pôr esperança no coração dos que mais sofrem. E são grupos de pessoas bem definidas a quem Jesus se sente enviado para revelar o rosto de misericórdia de Deus; proclamar a boa noticia aos “pobres”,  anunciar a libertação aos “cativos”, a recuperação da vista aos “cegos”, dar a liberdade aos “oprimidos”. Que grupos seriam estes no tempo de Jesus? Seria só pobreza, cegueira e prisão espirituais, como tantos pregam?  Os estudiosos do tempo de Jesus identificam bem as pessoas às quais Jesus se sente enviado:  os “pobres” que são os que sofrem toda espécie de opressão econômica; os “cegos”, a quem Jesus quer recupera a visão, pois sofrem tanta opressão física, a tal ponto que não enxergam mais direito; os “cativos”,  os que sofrem opressão política. Jesus não está preocupado com a impureza legal, nem com os pecados ou sacrifícios, menos ainda com a falta de observância da Lei.  Tem como programa semear liberdade, luz e graça naquelas aldeias da Galileia. E faz sua proclamação: é o ano Jubilar, o ano da graça do Senhor, o ano da restituição das terras, tempo de começar vida nova e seguir por novos caminhos. É tempo de revelar o Deus da Misericórdia e eliminar a ideia de um Deus vingador. Na sua leitura de Isaías exclui o texto que fala da “vingança do nosso Deus”.  A reação do povo de Nazaré foi polêmica: a favor e contra Jesus. Recebem, com alegria, a chegada da libertação da opressão, mas aceitar que este homem, que conhecem desde a infância, seja o Messias isto já não cabe no seu imaginário. O Deus da Misericórdia não é adequado para quem tem o coração imbuído de justiça vingativa. O texto prossegue informando que seus conterrâneos quiseram precipitá-lo de um monte alto. Ir. Zenilda Luzia Petry – FSJ