3º Domingo do Tempo Pascal
“Que palavras são essas que trocais entre vós pelo caminho?” – Lc 24,13-35 – O Evangelho do 3º domingo da Páscoa é um dos mais conhecidos do Novo Testamento.Trata-se do relato sobre os “discípulos de Emaús”. Na primeira leitura, dos Atos dos Apóstolos, voltamos a ler partes do discurso de Pedro, onde confirma que Jesus foi assassinado pelas autoridades judaicas e romanas, mas que está vivo e “disso todos nós somos testemunhas”. A segunda leitura, novamente da carta de Pedro, lembra aos batizados a vocação fundamental a que são chamados: ‘a santidade’. O Evangelho, uma narração da aparição de Jesus ressuscitado a dois discípulos que vão a caminho de Emaús, no próprio dia de Páscoa, é exclusiva de Lucas. Discute-se sobre a localização de Emaús e sua distância de Jerusalém, pois há informações contraditórias. Há quem leia também o relato como fato ocorrido historicamente. Questiona-se se são dois discípulos homens, se é um casal, se moram em Emaús e assim por diante. São questões secundárias. O que interessa a Lucas não é escrever um relato lógico e histórico, mas animar os cristãos dos anos 80 dC, e de nosso tempo, a reconhecermos que Jesus está vivo, bem como fazermos a experiência de encontro com Jesus ressuscitado. É um relato teológico. Trata-se, portanto, de uma página de catequese. Lucas inicia com a expressão: “naquele mesmo dia”, ou seja, na manhã de Páscoa. Dois discípulos saem de Jerusalém e põem-se a caminho para um lugar chamado Emaús. Um deles chama-se Cléofas; o outro não é identificado. Pode ser Maria, a mulher de Cléofas. Não sendo identificado, é qualquer um de nós. Parece estranho que deixem Jerusalém na manhã da Páscoa. Segundo uma lógica mais humana, poderiam ter se informado um pouco mais sobre as notícias que circulavam. Olhando o texto mais de perto, vemos que a conversa entre eles mostra a razão de se afastarem de Jerusalém: estão desiludidos, seus sonhos de triunfo e de glória ruíram pela base. Eles tinham apostado suas vidas num Messias “poderoso em palavras e obras”, que iria restaurar o reino de Israel. Os líderes religiosos e políticos o condenaram e o assassinaram da forma mais humilhante possível. A cruz era algo longe de qualquer projeto. Circulavam informações de que ele havia ressuscitado, mas a notícia fora dado por mulheres, pessoas sem credibilidade. Suas mentes estavam fechadas a qualquer outra versão dos fatos. A uma certa altura, Lucas introduz um novo personagem no quadro: o próprio Jesus, que se põe a caminhar com eles, acompanhando-os por um “caminho errado”. Mas ambos não reconhecem quem é este que se pôs a caminhar com eles. Consideram-no um “trecheiro” que não está informado sobre o que aconteceu em Jerusalém. Jesus observa-os, percebe sua tristeza e desilusão. Inicia questionando sobre o assunto que os inquieta tanto e eles dão as razões de sua desilusão. O diálogo possibilita os dois a “desabafarem”. Tudo o que contam realmente aconteceu, mas não conseguem ir além de sua visão. Jesus censura a sua forma de ver a realidade e lhes dá uma catequese sobre a necessidade de “ir além das palavras”, de perceber como tudo pertence ao plano de Deus. “Era preciso…” pois o caminho da salvação não passa pelo poder, pelo glória, pela grandeza, mas pelo serviço, pela partilha, pela abertura do coração. Uma leitura atenta da Sagrada Escritura, passando por Moisés e pelos profetas, lidos na perspectiva do pobre, mostra que o reinado de Deus passa pela cruz. Enquanto caminham, o coração de ambos foi se aquecendo, a simpatia pelo forasteiro foi crescendo e, chegando a Emaús, a hospitalidade se fez ação. Jesus aceita o convite, entra na casa e senta-se com eles à mesa. Enquanto comem, Jesus, assumindo o papel do dono da casa, “tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e entregou-lhe”. É então que os olhos dos dois discípulos se “abrem” e eles reconheceram, no companheiro de viagem, o próprio Jesus. A última cena da nossa história põe os discípulos a retomar o caminho, a regressar a Jerusalém e a apresentar-se novamente à comunidade que tinham abandonado horas antes. Jesus acompanhou os discípulos pelo “caminho errado” para faze-los voltar pelo “caminho certo. Não os inquieta a noite, os quilómetros a percorrer, nem a comida que ficou na mesa; a única coisa que lhes interessa é dar testemunho de que Jesus venceu a morte, está vivo e caminha novamente com os seus discípulos. A catequese de Lucas deixa evidente que, no ouvir a Palavra e celebrar a partilha do Pão, se faz a experiência do Cristo Ressuscitado e nasce o vigor da missão. Ir. Zenilda Luzia Petry – FSJ