4º Domingo da Quaresma
“Eu sou a luz do mundo” – Jo 9,1-41– O 4º Domingo da Quaresma tem a “luz” como principal símbolo. O que caracteriza a experiência cristã é “viver na luz”. Na primeira leitura não há uma referência direta à luz, mas a escolha e a unção de Davi como rei de Israel, ajudam-nos a olhar o profundo sentido da unção que todos recebemos no batismo: somos chamados a dar testemunho da “Luz” de Deus. Já na segunda Leitura, Paulo insiste sobre a necessidade de abandonar as “obras das trevas” e viver na “luz”, praticando a bondade, a justiça e a verdade. No Evangelho, Jesus se apresenta como “a luz do mundo”. O relato da cura do cego é longo, típico do Evangelho de João. É um dos “sete sinais” deste Evangelho, no qual o autor vai revelando que Jesus é o verdadeiro “Messias”, declaração feita por Jesus, diretamente para a mulher da Samaria (que lemos no terceiro do domingo da quaresma). O Evangelho deste dia não é uma reportagem jornalística sobre a cura de um cego, completamente impedido de ver. Trata-se de uma catequese, na qual Jesus é apresentado como a “luz” que veio iluminar o caminho da humanidade. O “cego” da nossa narrativa é um símbolo de todos os homens e mulheres que vivem na escuridão, privados da “luz”, prisioneiros dessas cadeias que os impedem de chegar à plenitude da vida. O relato se desenvolve em vários cenários. No primeiro, Jesus se apresenta como “a luz do mundo”. Ele e os discípulos estão diante de um cego que, de acordo com a teologia da época, sofria em consequência do pecado pessoal ou de um antepassado. Daí a pergunta dos discípulos. Jesus desconstrói esta mentalidade e aproveita para mostrar qual a missão que o Pai lhe confiou: ser “a luz do mundo”. No segundo cenário, Jesus passa das palavras aos atos e prepara-se para dar a “luz” ao cego. Cospe no chão, faz lama com a saliva, unge os olhos. Uma ação que certamente nos remete ao gesto criador de Deus (Gênesis 2)! A luz foi a primeira obra criada (Gênesis 1) e agora temos uma nova criação pois, como outrora, a humanidade mergulhou nas trevas, no caos primordial. Se bem seguirmos o processo, vemos que cura do cego não foi imediata. Ele precisou ir lavar-se na piscina de Siloé (nome que significa “enviado”, “apóstolo”/missionário); precisa obedecer a Palavra de Jesus, elemento essencial para a cura. O autor do 4º evangelho, com certeza, se refere ao Batismo: quem quiser sair das trevas para viver na luz, precisa aceitar a água do batismo, precisa optar por Jesus e acolher a proposta de vida e de “luz”que Ele oferece, aceitando o seu envio. Há um novo cenário (terceiro) com a presença de diversos personagens, que vão representar vários papéis e assumir atitudes diversas diante da cura do cego. Impossível descrever cada um, mas temos os “vizinhos”, os “fariseus”, os “pais”; cada grupo com suas reações e visões diante do ocorrido. A não adesão à luz vai se revelando nestes diversos grupos. O relato, porém, descreve a progressiva transformação pela qual o homem cego vai passando. Logo após a cura, ele não tem grandes certezas: ”não sei”, é “um profeta”, mas a “luz” vai amadurecendo-o progressivamente. No fim ele se torna o homem das certezas, das convicções, da fé; argumenta com agilidade e inteligência, joga com a ironia, mostra-se um homem maduro e livre, sem medo. A conclusão é sua adesão total a Jesus, caminho que todo catecúmeno é chamado a percorrer: “Creio, Senhor”. Neste tempo quaresmal, mais do nunca, somos convocados/as a receber a “luz” que Cristo oferece e, também, acender a “luz” da esperança no mundo, tão mergulhado em trevas. As cegueiras “desde o nascimento” são muitas e os diversos grupos de oposição continuam ativos. A “expulsão da sinagoga” é, também hoje, uma realidade sempre possível. A adesão a Jesus, o crucificado, mas “luz do mundo”, não gera aplausos. Acompanhemos a semana santa que se aproxima! Ir. Zenilda Luzia Petry – FSJ