7º DOMINGO DO TEMPO COMUM

18/02/2026

O “Filho Amado” é tentado – Mt 4,1-11

No início do caminho quaresmal, tempo de conversão e de renovação, a liturgia nos convida a repensar as nossas certezas, as nossas opções, os nossos valores. Os relatos bíblicos deste domingo são catequeses fundamentais para nosso ser e agir cristãos. A primeira leitura, do livro do Gênesis, traça as linhas principais do grande projeto de Deus: uma vida feliz e de plena realização. Feitos de “barro”, os seres humanos, porém, cedem às tentações e se afastam da utopia divina. Paulo, em sua carta aos romanos, ajuda a refletir sobre as nossas opções e apresenta dois caminhos: o de Adão e o de Jesus. Adão optou por ignorar as propostas de Deus e Jesus assumiu plenamente o projeto do Pai. Isto vai se evidenciar no Evangelho, na rica catequese sobre as opções de Jesus. Trata-se do conhecido texto das “tentações”, (presente nos evangelhos sinóticos) que a liturgia coloca no 1º domingo da Quaresma. O relato de Mateus é o mais detalhado e precisa ser lido como que “por trás das palavras”. A cena das “tentações de Jesus” está encaixada entre o episódio do batismo e o início da pregação do Reino de Deus. No batismo, o Pai declarou que Jesus era o “Filho muito amado” e Jesus, “ungido” pelo Espírito Santo, vai para o “deserto”. A “unção” era associada à missão e o “deserto” é símbolo de provação, aprendizagem e de preparação. Jesus tem consciência da sua missão: a de concretizar o projeto de salvação do Pai, projeto que Adão não realizou. Mas como Jesus vai realizar esta sua missão? Sendo Ele um ser que se encarnou na realidade humana, também precisa de preparação, de discernimento, precisa mergulhar no mistério de Deus. O Povo de Deus, ao longo da história, levou 40 anos para aprender os caminhos do Senhor. Mesmo assim, desvios foram uma constante em sua caminhada. Jesus vai ao deserto, lugar imaginário da “prova”, para seu necessário discernimento. Mateus afirma que “Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, a fim de ser tentado pelo Demônio. Jejuou quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome”. Jesus é conduzido pelo Espírito para o deserto para ser tentado. Uma linguagem estranha: ser conduzido ao deserto pelo Espírito, para ser tentado, ou para ser “testado”, para ser “provado”. Após 40 dias, quando Jesus chega ao limite humano, faminto, vazio de tudo, pronto para decidir, aproxima-se o tentador, o sedutor. Certamente não se pode ler este relato ao “pé da letra”. Pode-se supor que Jesus tenha falado com os seus discípulos sobre as provações que enfrentou com relação a opção pelo Reino do Pai. Os reinos deste mundo são sedutores, fascinantes, cheios de sabedoria humana, e Jesus não esteve isento destas tentações. O curioso é que o tentador não sugere ações perversas, negativas, maldosas. São opções muito humanas, até necessárias: alimento, sucesso, poder. Os discípulos serão igualmente tentados e terão que fazer suas opções. Olhemos brevemente as três tentações. A primeira sugere que Jesus faça dos bens materiais a prioridade de sua vida. “Se és Filho de Deus, diz a estas pedras que se transformem em pães”. No Batismo o Pai havia declarado que Jesus era o “filho amado”. O tentador inicia dizendo: “Se és Filho de Deus”. Parece querer também introduzir uma suspeita: “se és…”. A fidelidade à Palavra de Deus evita a queda. A segunda sugere a Jesus um êxito fácil, mostrando poder por meios espetaculares. O fascínio pelo espetáculo midiático é ameaça constante. A terceira “tentação” sugere a Jesus o caminho do poder, do domínio, da prepotência, ao estilo dos grandes da terra. Jesus não se deixa “cair em tentação”. Certamente trata-se de uma catequese, pois transformar “pedra em pão”, atirar-se do “pináculo do templo”, subir no monte e contemplar todos os reinos, são imaginários sem fundamentos. Além do mais, não existe nenhum monte no mundo onde seja possível contemplar todos os reinos. A conclusão é clara: só Deus é absoluto e só ele deve ser adorado. Finalmente Mateus afirma que Jesus, vencedor das tentações, é servido pelos anjos. Ir. Zenilda Luzia Petry – FSJ