2º Domingo da Quaresma

26/02/2026

Transparência do Divino – Mt 17,1-9 – No segundo domingo da Quaresma, a Palavra de Deus nos convida a revigorar nossa fé e escutar a voz de Deus que se dirige à humanidade, no seu Filho, que habita entre nós! Os caminhos do Senhor nos desafiam a uma entrega total, sustentada apenas pela fé. A primeira leitura nos apresenta Abraão, considerado “pai da fé” que, depois de ouvir a Palavra do Senhor, deixa tudo e avança rumo ao desconhecido. Na segunda leitura, na Carta a Timóteo, o autor desafia a proclamar a proposta de Deus de cima dos telhados e chegar ao coração da humanidade, mesmo correndo riscos, enfrentando medos, suscitando oposições. No Evangelho, temos o episódio da Transfiguração de Jesus, um dos textos muito conhecidos e relatado pelos Evangelhos Sinóticos. Do ponto de vista do contexto literário, trata-se de um relato que está como que no meio dos evangelhos. Na primeira “etapa”, Jesus caminhou pela Galileia, ensinando e curando, anunciando o Reino de Deus. Na segunda “etapa”, o foco é mais o fim trágico. Nesta primeira “etapa”, Jesus esteve acompanhado pelos discípulos e por “multidões”. Eram pessoas que tinham decidido segui-lo ou que buscavam suprir suas necessidades de comida, saúde, sentido para suas vidas. Alguns acreditavam que Jesus era realmente o Messias que Israel esperava. Os discípulos, porém, ao ouvirem Jesus falar que “tinha de ir a Jerusalém e sofrer muito, da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos doutores da Lei, ser morto e, ao terceiro dia, ressuscitar”, ficaram assustados e um tanto desiludidos. Seguir um Messias que iria terminar na cruz não era sua opção. Neste contexto, Jesus toma consigo Pedro, Tiago e João, a “equipe central” dos discípulos, o grupo mais “resistente” e os convida a subir com Ele a um monte. O texto não informa sobre qual “monte”. A tradição fala do monte Tabor (do hebraico, Boa/Bela Luz) . Nesse monte, aqueles três discípulos vão vislumbrar, ainda que por um breve instante, o projeto de Deus. Literariamente, a narração é uma “teofania”, ou seja, uma “transparência do divino”, construída a partir de elementos simbólicos tirados do Antigo Testamento. O “monte” nos coloca em ambiente de revelação: é sempre num monte que Deus Se revela. A mudança do “rosto” e as “vestes” de brancura resplandecente recordam o resplendor de Moisés, ao descer do Sinai. A “nuvem”, por sua vez, indica a presença de Deus, pois assim conduzira o seu Povo através do deserto. Moisés e Elias, as duas figuras do Antigo Testamento, que também aparecem no cenário da transfiguração de Jesus, representam a Lei e os Profetas. As “tendas” podem ser uma referência à “festa das tendas”, em que se celebrava o tempo do êxodo e o dom da Torá (“Lei”). O “medo” que toma conta dos discípulos, é a reação habitual da criatura humana diante da manifestação da grandeza, da onipotência e da majestade de Deus. Mas o elemento mais significativo é, sem dúvida, “a voz” que vem da “nuvem”. “Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O”. A figura humana de Jesus se transfigura, ou seja, é a “transparência do divino” para os três discípulos e para toda a humanidade. Mesmo caminhando para a cruz, é o Filho amado do Pai e a nós cabe “ouvi-lo” e seguir seus passos. Por enquanto, esta experiência deve ser silenciada, pois a cruz continua no horizonte: “Não conteis a ninguém esta visão, até o Filho do Homem ressuscitar dos mortos”. Certamente os discípulos, mesmo perplexos e confusos, prosseguiram no seguimento de Jesus, agora com esperança renovada. A ressurreição de Jesus foi a palavra final para estes primeiros seguidores de Jesus. Ninguém mais calará seu anúncio. Talvez este relato da transfiguração de Jesus, abrindo a segunda semana da Quaresma, encha-nos da esperança que luz veio para os seus e que a escuridão não tem a última palavra! No atual contexto secular e ateu, reaqueça nossa fé e nos faça “transparecer” o Divino que nos habita, apesar das trevas e tremores que nos cercam! Ir. Zenilda Luzia Petry – FSJ