Solenidade Pentecostes
“Recebei o Espírito Santo” – Jo 20,19-23 – A solene celebração deste dia vem coroar o tempo Pascal: é o primeiro dia depois das sete semanas da pós Páscoa (49 dias). Pentecostes é o quinquagésimo dia. Não se trata de encerramento de um período litúrgico, mas de um convite para prolongar este belo mistério em nosso cotidiano! O episódio do Evangelho de João, já lido no segundo domingo da Páscoa, mostra-nos a comunidade constituída em torno de Jesus ressuscitado: é Dele que recebe o Espírito, sopro libertador, dom que a fará compreender e expandir a experiência do “encontro com Cristo ressuscitado”. O texto recorda a experiência de uma comunidade fechada, de discípulos inseguros e com medo, para uma Comunidade Apostólica, enviada a estabelecer no mundo laços de paz e perdão, prolongando as obras de Jesus, que realizou a vontade do Pai. Nesta sua aparição, ocorrida no dia mesmo da Páscoa, Jesus sopra sobre os discípulos e comunica o Espírito Santo. Um sopro que faz memória do primeiro sopro, no Gênesis, quando o homem se torna “um ser vivente”. Em João, não há o espaço de 50 dias após a Páscoa, como em Lucas, para a descida do Espírito Santo. Aliás, são diversos os relatos no NT nos quais há uma efusão do Espírito Santo, fora do contexto da festa de Pentecostes. A rigor, Pentecostes não é o evento da descida do Espírito Santo, pois Maria concebe pelo “poder do Espírito Santo”, Isabel é “repleta do Espírito Santo”. O Livro dos Atos, além da narrativa de Pentecostes, relata a descida do Espírito por ocasião do Batismo de novos discípulos, quando se anuncia a Palavra, como também quando se sofre perseguições. É de se destacar que, muitas vezes, são mulheres as que recebem o Espírito Santo. Olhemos mais de perto a narrativa dos Atos da celebração deste dia. O texto inicia dizendo: “Quando chegou o dia de Pentecostes”. Lucas relaciona a descida do Espírito Santo com o Pentecostes judaico. “Pentecostes”, palavra grega, era uma festa judaica, celebrada cinquenta dias após a Páscoa. Na origem, era uma festa agrícola, na qual se agradecia a Deus pela colheita da cevada e do trigo. No séc. I, tornou-se a festa histórica que celebrava a aliança, o dom da Toráh, da Lei no Sinai e a constituição do Povo de Deus. ‘Pentecostes’ é uma festa judaica que, em si, não significa ser a festa do “Espírito Santo”. Lucas é quem aproveita da festa judaica, a festa das primícias, da colheita, como metáfora da ação do Espírito Santo. Ele proclama que o Espírito Santo é a Lei da Nova Aliança e que, por Ele, se constitui a nova Comunidade do Povo de Deus, a Igreja. Certamente o relato dos Atos é uma construção teológica e não uma narrativa histórica. A descrição do evento é feita com recursos literários de imagens, símbolos e linguagem poética. O símbolo, a poesia são valiosos recursos para indicar a grandeza do mistério que se quer revelar. Lucas apresenta o Espírito como “força de Deus”, que se manifesta como “vento” e como “fogo”. Dois símbolos da revelação do Sinai. A força divina é irresistível e vem ao encontro da humanidade. “Sopra onde quer”. É apresentada em forma de “língua de fogo”. A língua não é somente a expressão da identidade de um grupo humano, mas é também a maneira de comunicar, de criar comunidade, de estabelecer laços duradouros entre as pessoas. “Falar outras línguas” é criar relações entre os diferentes, é construir comunidade. É o surgimento de uma humanidade unida pela partilha, pela compreensão, pela comunicação, pelo amor. A possibilidade de ouvir na própria língua “as maravilhas de Deus” irá gerar uma comunidade universal. Todos os povos, podendo ouvir o Evangelho em sua língua, sem abandonar sua cultura, suas diferenças, terão a possibilidade de ser Igreja, de pertencer à comunidade de salvação. Todos unidos pela “mesma linguagem”, a do amor, do respeito, da liberdade, da comunhão e da missão, constituem a comunidade da Nova Aliança. “Mandai, Senhor, o vosso Espírito e renovai a terra”. Cabe a nós “receber”, acolher, deixar-se conduzir pelo divino Espírito. Ir. Zenilda Luzia Petry – FSJ