Domingo do Bom Pastor

23/04/2026

“Conheço as minhas ovelhas e elas me conhecem”- Jo 10,1-10 – O 4º domingo do tempo pascal é o “Domingo do Bom Pastor”. É também o dia mundial de orações pelas vocações. A cada ano, no 4º domingo, a liturgia propõe textos do capitulo 10 de João, no qual Jesus se auto proclama o “bom pastor”. A figura do bom pastor está por detrás das outras duas leituras bíblicas deste domingo: na primeira leitura, dos Atos dos Apóstolos, Pedro, após a vinda do Espírito Santo, em outras palavras,  mostra o caminho a ser percorrido pelas “ovelhas” que assumem seguir a voz deste pastor. Na segunda leitura, mais uma vez da Carta de Pedro, o autor anima os cristãos que estão em dura experiência de sofrimento, a cultivarem a esperança, pois “Vós éreis como ovelhas desgarradas, mas agora voltastes para o pastor e guarda das vossas almas”. O Evangelho é uma dessas pedras preciosas presentes nos Evangelhos, especialmente em João. Olhemos o texto mais de perto: A imagem do “Bom Pastor” não foi inventada pelo autor do quarto Evangelho. A bem da verdade, este discurso traz muito material do Antigo Testamento. Desde longa data, os líderes de Israel eram considerados “pastores do povo”. O rei Davi teria sido escolhido enquanto cuidava das ovelhas. Além de muitos Salmos e outros textos bíblicos, o profeta Ezequiel (cf Ez 34) nos oferece a chave de leitura  para compreender as metáforas do “Pastor” e das “ovelhas”. Na dura experiência do Exílio da Babilônia, Ezequiel constatou que os líderes de Israel, ao longo da História, não foram “bons pastores”. Conduziram o povo por caminhos de sofrimento, de abandono, de injustiças e mortes. Os governos foram quase sempre “maus pastores”. Neste contexto, a profecia começa a anunciar a queda destes pastores e anunciar a vinda de um “novo pastor”, um “messias bom”. Jesus foi reconhecido como este “pastor bom” prometido e esperado: “Eu vim para que as minhas ovelhas tenham vida e a tenham em abundância”. Olhando o contexto literário próximo, Jesus teria pronunciado o “discurso do Bom Pastor” em Jerusalém, durante a “festa da Dedicação do Templo”. Havia um ritual próprio para o acedimento  de luzes dentro do templo e na praça. Era uma festa bem popular, mas também concorrida pelas lideranças político religiosas. Neste ambiente, um pouco antes, Jesus havia curado um cego de nascença (cf Jo 9) mostrando que Ele era “a Luz” verdadeira que veio iluminar as trevas. Apesar do ambiente festivo, havia muita tensão entre Jesus e os líderes judaicos. Basta olhar para a situação do cego curado, que foi expulso pelas lideranças religiosas. Jesus, observando toda a dinâmica do ambiente, faz o duro discurso relatado no Evangelho deste dia. Enquanto líderes da comunidade, estes deviam conduzir o povo pelos caminhos da vida; mas, ocupados com os seus interesses pessoais e preocupados em preservar os privilégios, não assumiam suas responsabilidades. Rejeitaram acolher a luz libertadora de Deus e fizeram tudo para que o povo permanecesse nas trevas, explorado, marginalizado. O povo de Deus, conduzido por gente indigna e incompetente, era como um “rebanho sem pastor”. Os que deveriam ser “pastores do povo” são “ladrões e salteadores”. Assim sendo, quando Jesus se auto proclama como “bom pastor”, ele acusa as lideranças que estão sendo “maus pastores”. É sob este olhar que se pode compreender melhor o Evangelho do “Bom Pastor”: uma denúncia muito dura às lideranças do povo, e um esperançoso anúncio aos pobres, excluídos, marginalizados. Uma relação de acolhida, proteção, intimidade, conhecimento amoroso; é o que o “bom pastor” anuncia às suas “ovelhas” que ouvem a sua voz e o seguem. Toda a vida das “ovelhas” passa por Jesus. A conclusão é clara: a missão que recebeu do Pai se resume na solene afirmação: “Eu vim para que as minhas ovelhas tenham vida e a tenham em abundância” .